Quando pensamos a sociedade humana, não é possível afastar o mundo material e simbólico que há nas relações. A partir daí, há uma teoria descrita pelo sociólogo e antropólogo Marcel Mauss que tem o condão de indagar como o indivíduo acolhe suas decisões já conhecidas, estabelecidas e de acordo com suas preferências, tendo em vista seus interesses em relação ao dinheiro, bens de consumo em consonância com delicadezas diárias como gentilezas, presentes, cuidados etc., ou seja, a teoria em questão circula e está em toda parte.
No dicionário a dádiva seria um dom, uma recompensa sem esperar algo em troca, uma graça divina. Entretanto, não daremos um caráter religioso para nosso significado. A teoria da dádiva aqui traz a tríplice obrigação: dar, receber e retribuir, buscando especialmente um hábito de reciprocidade interpessoal. Ademais, não há dúvida que a troca só agrega, permite a comunicação e a sociabilidade, e, de certa forma afirma o nosso lugar na sociedade.
O autor sugere ainda que o “espírito da dádiva” funcione como um novo paradigma, bem como o consumo possa agir também em prol dos laços sociais. Em outras palavras, os processos de reciprocidade estão ligados com os laços sociais e se fundamentam nas trocas, por isso, a troca não é apenas a permuta de produtos, esta contém uma dimensão de sociabilidade, apoiada na solidariedade e nas obrigações mútuas. Por outro lado, à ideologia do mercado facilita o abandono das relações, pois seu cerne nunca foi a dádiva.
Logo, o dom é um fenômeno pleno em nossas vidas, entrelaçando bens materiais ou mesmo meros gestos. Necessário para a sociedade. A intenção é trazer a reflexão acerca destas trocas, demonstrando que estas não são só econômicas, mas também políticas e culturais, no qual coloca em movimento a sociedade como um todo e suas instituições. Assim, não resta dúvida da relevância da união dos grupos humanos, pois ofertas mútuas acabam estabelecendo alianças, proteção e assistência, isto é, solidariedade social.
Deste modo, a dádiva representa a liberdade e ao mesmo tempo a obrigação. Pense. Este dom pode estar revestido na forma de presentes e doações, entre elas a caridade e órgãos. Então, você retribui e faz circular essas trocas? Tem interesses e valores nessas práticas? Vê generosidade nas relações? E aí, já sabe dizer qual a sua dádiva?
Publicado na Revista Estilo Zona Sul, 24ª Ed. Ano 05. Setembro de 2015. Porto Alegre, RS. Brasil.

